terça-feira, julho 03, 2007
Redacção

Mandaram-me um texto produzido por uma aluna da Faculdade de Letras (não mencionam a Universidade) que "obteve vitória num concurso interno promovido pelo professor da cadeira de Gramática Portuguesa".
"Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador.
Um substantivo masculino, com aspecto plural e alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. O artigo, era bem definido, feminino, singular. Ela era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal. Era ingénua, silábica, um pouco átona, um pouco ao contrário dele, que era um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanático por leituras e filmes ortográficos.
O substantivo até gostou daquela situação; os dois, sozinhos, naquele lugar sem ninguém a ver nem ouvir. E sem perder a oportunidade, começou a insinuar-se, a perguntar, conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado e permitiu-lhe esse pequeno índice.
De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro.
Óptimo, pensou o substantivo; mais um bom motivo para provocar alguns sinónimos. Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeçou a movimentar-se. Só que em vez de descer, sobe e pára exactamente no andar do substantivo.
Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela no seu aposento. Ligou o fonema e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, suave e relaxante. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela.
Ficaram a conversar, sentados num vocativo, quando ele recomeçou a insinuar-se. Ela foi deixando, ele foi usando o seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo.
Todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo directo.
Começaram a aproximar-se, ela tremendo de vocabulário e ele sentindo o seu ditongo crescente. Abraçaram-se, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples, passaria entre os dois.
Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula.
Ele não perdeu o ritmo e sugeriu-lhe que ela lhe soletrasse no seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas palavras, pois estava totalmente oxítona às vontades dele e foram para o comum de dois géneros.
Ela, totalmente voz passiva. Ele, completamente voz activa. Entre beijos, carícias, parónimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais.
Ficaram uns minutos nessa próclise e ele, com todo o seu predicativo do objecto, tomava a iniciativa. Estavam assim, na posição de primeira e segunda pessoas do singular.
Ela era um perfeito agente da passiva; ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular.
Nisto a porta abriu-se repentinamente.
Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo e entrou logo a dar conjunções e adjectivos aos dois, os quais se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas.
Mas, ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tónica, ou melhor, subtónica, o verbo auxiliar logo diminuiu os seus advérbios e declarou a sua vontade de se tornar particípio na história. Os dois olharam-se; e viram que isso era preferível, a uma metáfora por todo o edifício.
Que loucura, meu Deus!
Aquilo não era nem comparativo. Era um superlativo absoluto. Foi-se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado aos seus objectos. Foi-se chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo e propondo claramente uma mesóclise-a-trois.
Só que, as condições eram estas:
Enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria no gerúndio do substantivo e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.
O substantivo, vendo que poderia transformar-se num artigo indefinido depois dessa situação e pensando no seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história. Agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, atirou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva."
Etiquetas: Ensino Superior, Humor
sábado, novembro 18, 2006
Desafios às Universidades
É verdade que levanta muitas questões pertinentes, às quais a comunicação social tem dado algum eco. Aconselho, no entanto, a sua leitura integral.
Encontrarão do discurso aqui (para download). Boa leitura e boa reflexão.
Esperemos que os desafios não ponham em causa o funcionamento das universidades, o seu corpo docente e os seus alunos. Podemos restruturar, mas devemos dispensar?
Etiquetas: Ensino Superior
segunda-feira, setembro 18, 2006
Acesso ao Ensino Superior: Colocações
Algumas soluções são já conhecidas, e não passam pela extinsão dos cursos de línguas. Porém, continuamos a preservar modelos e formações que não são apelativas para os jovens de hoje. Por vezes, alteram-se as designações continuando as disciplinas a manterem-se iguais por não existir uma vontade expressa de mudança por parte de alguns membros do corpo docente, agarrados à sua cátedra. Pelo menos, e ainda bem que assim é, essas situações são já esparsas.
Não obstante, os cursos de línguas vivem em tempos adversos, a melhorar e modernizar uma imagem manchada pelo Governo e comunicação social. A falta de alunos prejudica essas alterações, tendo em conta que não permitem que os cursos agora criados mostrem o que valem.
Saudações académicas.
Etiquetas: Ensino Superior
sexta-feira, setembro 08, 2006
Cursos Intensivos de Línguas
O artigo que aqui se reproduz aporta algumas questões que convém debater num espaço de ensino de línguas que não pertence já unicamente às escolas públicas dos vários graus de ensino, no nosso caso em particular, às Instituições de Ensino Superior.
Mas voltando ao artigo.
O mercado de trabalho exige, actualmente, que os quadros médios e superiores das empresas portuguesas ou estrangeiras a operar em Portugal saibam mais do que a sua língua materna, e que saibam mais do que uma língua estrangeira.
Não obstante, os cursos de línguas oferecidos, continuam, na sua grande maioria, a ser "livres", não especializados, não interligados com o mundo empresarial e hoteleiro, que através de parcerias com as Universidades poderiam abrir um mercado de formação dos seus empregados na área de línguas estrangeiras e, claro está, materna.
Os cursos de línguas existentes continuam a funcionar em muitos casos devido à carolice dos docentes, pela sua paixão à divulgação de uma língua e cultura estrangeira que consideram também sua. Trabalho, na maior parte dos casos, não remunerado e não reconhecido para fins de progressão na carreira. Os cursos funcionam em horários pós-laborais, durante o ano lectivo, sem parcerias com as empresas, não se especializando, claro está, em determinadas áreas da comunicação humana, por não existir essa necessidade. Apenas se assiste a um crescimento da oferta do Português como Língua Estrangeira, em cursos de verão, que, a nosso ver, tem registado francos sucessos.
O mercado de cursos de línguas especializados, é, habitualmente, apenas aproveitado por instituições privadas, especializadas no ensino de línguas. As universidades e politécnicos, públicos e privados, como sabemos, pela exigência de formação do seu corpo docente e por, geralmente, contratarem falantes nativos (ou bilingues) das línguas ensinadas, podem fornecer elevados graus de qualidade e exigência, concorrendo de forma segura com essas instituições.
Cabe, então, às universidades e politécnicos criar grupos de trabalho que contactem as empresas (secundárias e terciárias), que estudem parcerias e que criem os cursos.
Etiquetas: Ensino Superior, Reflexões Minhas
quarta-feira, junho 21, 2006
Política(s) de Ensino de Línguas: pequenos apontamentos
Iniciou-se em 2000, o que se pretendia ser uma pequena revolução nos curricula portugueses do ensino de línguas, com a aplicação de metodologias de ensino pensadas não a partir de objectivos cognitivo-comportamentais, mas antes viés competências a atingir em fim de ciclo de estudos.
Não obstante a aplicação do Quadro Europeu Comum de Referência se ter feito, pensamos nós, com algum sucesso no Ensino Secundário, através de programas bem elaborados (não nos compete aqui desenvolver as falhas existentes), nos 2º e 3º ciclos do Ensino Básico consideramos que a aplicação governamental foi, em certa medida um desastre. Não foi pior devido à carolice dos agentes de ensino, tão injustamente ignorados e desprestigiados: os professores.
Várias razões se podem apontar. Passaremos algumas em revista:
- Não houve, após a reorganização curricular e aplicação das competências gerais, essenciais e transversais, a construção de programas de disciplina adaptados às novas realidades programáticas. Assim sendo, os docentes estão ainda, volvidos seis anos, a trabalhar simultaneamente com o documento das competências essenciais e os anteriores programas (não compatíveis em nossa opinião), à mercê de editores de manuais escolares que se julgam detentores da sabedoria sobre a forma como conjugar os dos dois documentos, originando práticas de ensino que roçam o excessivamente tradicional, como defesa à inovação.
- A nova realidade curricular conduziu à partilha de horas lectivas entre línguas estrangeiras. Este facto permite, por exemplo, que a língua estrangeira 2 (iniciada no 3º ciclo) apenas tenha um bloco de 90 minutos por semana; o que convenhamos não permite a aprendizagem do que quer que seja.
- Tem-se progressivamente assistido ao encerramento dos cursos em línguas e culturas estrangeiras no Ensino Superior por falta de alunos, por o estudo de línguas ter sido desprestigiado pelo Governo e pela Comunicação Social (que prestou, neste caso, um grande favor ao Governo Português).
Porém, convém não esquecer que Portugal foi o país que propôs a Estratégia de Lisboa, na qual se pretendia tornar a EU mais competitiva até 2010, viés o investimento na educação, na investigação, na sociedade de informação e na formação ao longo da vida. Pois considero que em Portugal, apesar do Plano Tecnológico, se tem procurado fazer muito pouco para aplicar aquilo que se defendeu no período de governação do Eng.º António Guterres.
De facto, a mão-de-obra portuguesa está cada vez mais desqualificada, em comparação, por exemplo com a população dos países da Europa Central e de Leste.
Não podemos falar em mobilidade de trabalhadores se estes não conhecerem a língua e cultura do país para o qual vão trabalhar; não podemos falar em investimento e criação de riqueza através da expansão das nossas empresas, se os nossos empresários teimam em não saber falar línguas estrangeiras, nem contratarem tradutores/interpretes e consultores linguísticos para as suas empresas. Esta mão-de-obra qualificada, claro está, exige salários do nível das suas qualificações.
O simples conhecimento do Inglês, tão apregoado pelo Eng.º Sócrates, também é insuficiente se pensarmos, por exemplo, na realidade francófona que cobre os cinco continentes e constitui a segunda língua europeia que é estudada quer como língua materna, como língua segunda, ou como língua estrangeira. Isto para não falarmos no Espanhol e no Alemão.
Precisamos de reverter os pontos acima indicados, atribuindo maior número de horas às línguas estrangeiras, reduzindo o efectivo através, por exemplo, do desdobramento de turmas, como se faz (ainda?) para a disciplina de Físico-Química; criando laboratórios de línguas nas escolas (se não em todas, pelo menos nas escolas secundárias); investindo na formação superior em línguas (para fins específicos, porque não?); criando finalmente os programas para o 3º ciclo do EB, antes que se passe a ter uma terceira versão curricular ancorada num paradigma teórico-metodológico diferente.
A construção de uma Europa multilingue, de uma economia multilingue (como é aliás defendido pelos 25 estados membros[1]) assim o exige!
Pergunto-me que medidas apresentarão, em 2007, o Eng.º Sócrates e a Sr.ª Ministra da Educação para a promoção das aprendizagens de línguas e diversidade linguística (cf. http://europa.eu/scadplus/leg/pt/cha/c11068.htm). Eu conheço apenas uma (ensino do Inglês no 1º ciclo). Vocês conhecem mais?
Bom trabalho.
Etiquetas: Ensino Superior, Reflexões Minhas
sexta-feira, junho 02, 2006
Propostas para o Ensino Superior
A Comissão Europeia traçou algumas linhas mestras para o desenvolvimento das universidades portuguesas, que considero importantes. Com efeito, os Comissários Figel (Educação) e Potocnik (Investigação) apresentaram uma Comunicação da Comissão sobre a modernização das Universidades com “o objectivo de mobilizar os Estados-Membros no sentido de que as 4000 universidades europeias contribuam mais significativamente para a Agenda de Lisboa na criação de maior crescimento e de mais e melhores empregos. Apesar do enorme potencial que estas 4000 universidades europeias constituem, o ensino superior europeu continua bloqueado por inúmero obstáculos. A Comissão Europeia identifica 9 áreas a sofrer alterações por forma a que as universidades europeias possam contribuir para a criação de uma verdadeira economia do conhecimento.” (informação fornecida pelo PRELO)
Consultar o link seguinte para o texto integral:
http://ec.europa.eu/education/policies/2010/lisbon_en.html
A delegação da Agência Universitária Francófona junto da EU preparou um apanhado das medidas mais importantes. Transcrevo aqui a mensagem enviada através da lista de difusão FRAMONDE:
« Veuillez trouver ci-dessous pour information, une synthèse de récents propos du Commissaire européen chargé de l'Education, de la Formation, de la Culture et du Multiliguisme, sur les universités, préparée par le bureau de l'AUF à Bruxelles (les documents de référence sont indiqués en bas de page).
Bruxelles, 10 mai 2006
Ján Figel, Commissaire européen en charge de l'Education, de la Formation, de la Culture et du Multiliguisme, a déclaré : « Bien que formant des millions de personnes chaque année, l'enseignement supérieur européen reste entravé par nombre d'obstacles, dont certains sont vieux de plusieurs décennies. La communication adoptée aujourd'hui contribue au débat sur la nécessaire modernisation des universités de l'Union européenne ».
« Les universités sont des centrales de production du savoir » a affirmé Janez Potocnik, Commissaire en charge de la science et de la recherche. « À l'instar d'autres pans de la société et de l'économie, elles devront s'adapter aux exigences d'une économie mondialisée fondée sur la connaissance. Les idées que nous soumettons aujourd'hui devraient aider à amorcer un débat au sein des États membres, et des universités mêmes. »
La Commission européenne recense 9 domaines où des changements devraient être introduits pour que les universités européennes contribuent à la création d'une véritable économie de la connaissance. Chaque établissement devrait trouver l'équilibre entre enseignement, recherche et innovation convenant le mieux à son rôle dans sa région ou son pays, selon une démarche nécessairement différenciée. Le but est d'offrir aux universités un cadre leur permettant, à l'ère de la mondialisation, de renforcer leur poids dans la société et l'économie de la connaissance. L'ambition première est naturellement que les universités atteignent un niveau d'excellence dans leurs activités d'enseignement et de recherche.
Les propositions avancées aujourd'hui par la Commission consistent entre autres à :
- accroître la proportion de diplômés passant au moins un semestre à l'étranger ou dans l'industrie ;
- permettre aux étudiants désireux d'étudier ou de faire de la recherche dans l'UE de bénéficier de bourses ou prêts nationaux ;
- aligner les procédures de reconnaissance des qualifications universitaires sur celles applicables aux qualifications professionnelles et à faciliter la reconnaissance des diplômes européens en dehors de l'UE ;
- introduire dans la carrière des chercheurs une formation dans les domaines de la gestion de la propriété intellectuelle, de la communication, de la connexion en réseau, de l'entrepreneuriat et du travail en équipe ;
- imprimer à l'enseignement une nouvelle orientation facilitant une plus grande participation aux stades ultérieurs du cycle de vie, en tenant compte des besoins de la main-d’œuvre européenne et en veillant à ce que les universités puissent s'adapter au vieillissement de la population européenne ;
- modifier les systèmes nationaux de frais d'inscription aux universités et d'aide aux étudiants pour que les meilleurs éléments puissent poursuivre leurs études supérieures et une carrière de chercheur, quelle que soit leur situation d'origine ;
- mettre en place de nouveaux systèmes de financement des universités davantage axés sur les résultats et conférant aux établissements une plus grande responsabilité vis-à-vis de leur viabilité financière à long terme, notamment dans le domaine de la recherche ;
- étendre l'autonomie et la responsabilisation des universités pour qu'elles puissent répondre rapidement au changement, notamment grâce à de nouveaux cursus adaptés aux évolutions récentes, à un resserrement des liens interdisciplinaires et à une démarche mettant plus l'accent sur les grands domaines de recherche (énergies renouvelables, nanotechnologies par exemple) que sur les disciplines. Chaque établissement pourrait aussi bénéficier d'une plus grande autonomie dans le choix de ses enseignants et chercheurs.
http://www.europa.eu.int/comm/education/policies/2010/lisbon_en.html
http://europa.eu.int/eracareers/index_en.cfm
MEMO/06/190 »
Apresentarei mais tarde os meus comentários. Podem começar por deixar os vossos.
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